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Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto | Resenha



Nota: 9/10
Como já é possível ler pelo título, Quaresma não tem um fim feliz, e, certamente, essa obra não narra a felicidade de um brasileiro. É perante o recorte espaço-temporal da cidade do Rio de Janeiro do fim do século XIX, durante a República da Espada (1889-1894), ao abrigo do crescimento do capitalismo e da perpetuação da oligarquia rural, que o texto narra os infortúnios da vida de Major Quaresma, um metódico funcionário público, intelectual e patriota exacerbado.

Importante no movimento pré-modernista – sendo considerado “prépor ainda não ter os ideais bem definidos e agressivos como os após 1922, com o movimento em si -, o qual utilizou, nas artes em geral, o regionalismo e o nacionalismo, o livro apresenta os pensamentos e as ideologias que se instauravam nos pensamentos sociais da mudança de séculos (XIX-XX) no Brasil. “Triste fim de Policarpo Quaresma” destaca marcas, as quais, atualmente, encontram-se difusas e, muitas vezes, representantes da alienação e/ou da ignorância do mundo globalizado, e foram importantes na tentativa de definição de uma identidade nacional.

Os hábitos e valores carioca são bem narrados na obra, um dos motivos de sustento do título de clássico nacional. É narrada na terceira pessoa a vida pacata e pouco culta dos cidadãos da nova nação, os quais desconsideravam as práticas de leitura àqueles que não se dedicavam ao título de doutor das leis ou das ciências médicas, compondo uma sociedade nacional que, apesar de independente e republicana, ainda seguia os costumes de moda e de arte europeia, contrariando todos os princípios do ávido leitor e estudioso da cultura nacional, Major Quaresma. Dessa forma, o personagem principal vai sendo descrito pelo narrador (onisciente) como um ser de personalidade bastante forte e, socialmente, muito desprezível.

Sob ideais extremos e uma mentalidade inflexível, Policarpo Quaresma vai se apresentando um ufanista ou patriota exacerbado, ficando ao longo de sua vida cada vez mais isolado, tachado de doido e frustrando-se por não obter nenhum resultado positivo com seus princípios. A mudança para a área rural, perto da pecuária e agricultura, as quais acreditava ser facilitada por tamanha fertilidade e biodiversidade brasileira, chegou a acontecer, mas os desapontamentos não deixaram de lhe acompanhar.

Fica nítido, no texto, a presença de diversas críticas sociais, principalmente nos processos de ascensão social (hipocrisia burguesa), nas instituições estatais, nos sistemas políticos, na distribuição de terras, na valorização da cultura e na segregação socioespacial, ou seja, nos problemas consideravelmente comuns mesmo depois de mais de cem anos das publicações iniciais dos escritos em folhetim, trazendo a obra para uma leitura bastante atual e necessária para construção de um senso crítico sobre esses assuntos.

Além de política e economia, Policarpo Quaresma critica a língua e a agricultura nacional, atuando em defesa de uma completa emancipação do Brasil. O personagem afirma que não precisamos utilizar a língua portuguesa para ficar lembrando do nosso vergonhoso e problemático passado como colônia, uma vez que, dentro do território tupiniquim temos o tupi-guarani. Afirma também que somos autossuficientes e não precisamos (brasileiros) de nada mais do que aquilo que nossa terra produz.

Por fim, registro que durante a leitura fiquei bastante agoniado com as atitudes e os pensamentos de sobreposição da cultura nacional às outras repetidas vezes, fato que chega a ser cansativa a um jovem que nasceu em um mundo, hipocritamente, globalizado. Porém, isso não tornou minha leitura menos enriquecedora. Recomendo a leitura a todos, achei muito importante para meu crescimento como leitor e como cidadão.
           

Comentários

  1. Eu li esse livro em 2012 na escola e na época não gostei. Quem sabe não dou uma segunda chance para essa leitura, pois eu era pequena e não compreendia muito bem contexto histórico etc. Essa semana o sebo da minha cidade está aberto e vou lá dar uma olhada!

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    1. Às vezes pela obrigação de ler na escola você não gostou. Leitura tem que ser um hábito prazeroso e não uma obrigação, por mais que ler não seja uma atividade comum e necessite de persistência para iniciar. Boa leitura e abraços!

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  2. Gosto muito desse livro. Acho que vou ler ele novamente nessa quarentena.

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    1. Vale muito a pena, apesar de não gostar de reler livros eu gosto dele!

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  3. Oi, tudo bem? Este livro é maravilhoso. Ótima resenha. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  4. Fala Victor, tudo bem?

    Esse livro é um dos meus clássicos brasileiros FAVORITOS!! Creio que como a maioria dos jovens que já leram esse livro, fui obrigado a ler pela escola e me apaixonei, minha turma ficou responsável em criar uma peça teatral desse livro e adivinha quem foi o Policarpo? Se você pensou em mim acertou hahaha, acho que por isso me apaixonei tanto pela obra.

    As vezes fico pensando como estaríamos nós se as ideias do protagonistas tivessem sido ouvidas. Adoraria falar Tupi-guarani, afinal, é algo nosso, né? acho que já estou divagando igual ao Policarpo...

    Valeu pela visita no meu blog, adorei o seu e já to seguindo também \o/

    http://marcasliterarias.blogspot.com/

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    1. Então...não sou um idealizador desse país que o Policarpo Quaresma idealizava. Acho que se Tupi-Guarani fosse nossa língua oficial não mudaria muita coisa (só teríamos menos livros traduzidos para nosso idioma), até porque temos uma cultura riquíssima e mesmo assim não a valorizamos. O número de pessoas que segregam nossos próprios ritmos musicais e hábitos regionais é enorme. É super comum encontrarmos sobreposição de culturas entre sul e norte, nordeste e sudeste (inclusive a última secretária da cultura "Du(sem)Arte" fazia isso).
      Obrigado pela visita e abraços!

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  5. Leitura feita em 2016. Não achei incrível, mas tenho que admitir que é bom.

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